
A referência bíblica do título “Gomorra” faz um jogo de palavra com o nome do grupo criminoso Camorra, que controla o tráfico de armas e de drogas, e que também sempre esteve envolvido em articulações políticas desde sua criação, no começo do século 19. Responsável por um número absurdo de mais de 4 mil mortes em Nápoles desde os anos 70, a Camorra está embrenhada nas vidas da população local, mesmo que algumas pessoas não tenham ligação direta com seus membros.
O mosaico montado pelo diretor Matteo Garrone funciona praticamente como um diagrama da evolução do crime na máfia napolitana. Temos o garoto que se vê fatalmente seduzido pela guerra entre gangues, os dois adolescentes que querem dominar a região por conta própria, o jovem adulto que se envolve em um esquema de despejo ilegal de lixo, além dos personagens mais velhos, que já conhecem como funciona a Camorra e sabem os riscos de fazerem qualquer coisa que não seja aprovada pelos chefões do crime.
Sem espetacularizar em nenhum momento a violência praticada pelos personagens, Matteo Garrone faz um filme sóbrio e complexo. Se por um lado ele cria cenas de estética crua, utilizando planos-seqüências em abundância e elaborando momentos marcantes – especialmente aqueles protagonizados pelos dois jovens ansiosos para se tornarem os novos Scarface – por outro o diretor chega a confundir o espectador por não adotar uma narrativa tradicional, tornando tarefa nada simples seguir com tranqüilidade todas as tramas.
Sem dúvidas, trata-se de um novo épico policial, que oferece ao público momentos de choque através apenas do naturalismo com que é filmado.
direção: Matteo Garrone; com: Salvatore Abruzzese, Simone Sacchettino, Salvatore Ruocco, Vincenzo Fabricino, Vincenzo Altamura, Italo Renda, Gianfelice Imparato, Maria Nazionale; roteiro: Maurizio Braucci, Ugo Chiti, Gianni Di Gregorio, Matteo Garrone, Massimo Gaudioso, Roberto Saviano (baseado no livro de Roberto Saviano); produção: Domenico Procacci; fotografia: Marco Onorato; montagem: Marco Spoletini; estúdio: Fandango, Rai Cinema; distribuição: Paris Filmes.

Editor-chefe e criador do Cinematório. Jornalista profissional, mestre em Cinema pela Escola de Belas Artes da UFMG e crítico filiado à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e à Fipresci (Federação Internacional de Críticos de Cinema). Também integra a equipe de Jornalismo da Rádio Inconfidência, onde apresenta semanalmente o programa Cinefonia. Votante internacional do Globo de Ouro.