Exibido na 18ª Mostra CineBH, dentro da Mostra Homenagem à diretora e roteirista Anna Muylaert, “Que Horas Ela Volta?” reafirma sua relevância, mantendo-se como um espelho incômodo e necessário de estruturas que tecem – e limitam – nossa sociedade.
Lançado em 2015, “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert, explora as desigualdades sociais, especialmente nas relações trabalhistas e na maternidade. A diretora transforma a casa de uma família de classe média alta em São Paulo em um campo simbólico onde as relações, os espaços, objetos e a composição visual revelam hierarquias invisíveis, mas profundamente enraizadas, que definem quem pode ocupar determinados lugares na sociedade. Tudo isso numa construção (aparentemente) simples, mas inteligente de personagens.
A narrativa acompanha Val (Regina Casé), empregada doméstica há mais de uma década na casa de Fabinho (Michel Joelsas), a quem criou como filho, enquanto sua própria filha, Jéssica (Camila Márdila), crescia distante, em Pernambuco. Quando Jéssica chega a São Paulo para prestar vestibular, sua presença expõe fraturas na dinâmica estabelecida, desestabilizando a frágil harmonia imposta pela hierarquia social daquele ambiente. Diferente da mãe, Jéssica se recusa a aceitar as regras implícitas da subalternidade e desafia as convenções de um sistema que, por gerações, perpetua desigualdades. Quando ela passa no vestibular e o Fabinho não, tudo fica ainda mais conflituoso.
Maternidade e distância: o peso das escolhas
A maternidade é um dos eixos centrais do filme. Na ausência da mãe biológica, Bárbara (Karine Teles), é Val quem assume o papel de “mãe” de Fabinho – e até de tutora do cachorro da casa. No entanto, a narrativa sugere que essa ausência não se deve apenas à carga de trabalho de Bárbara (uma profissional da moda), mas também a um distanciamento emocional e à dependência de Val para suprir o afeto e os cuidados que ela mesma não consegue oferecer, nem ao filho, nem ao animal. O afastamento se estende ao pai, Carlos (Lourenço Mutarelli), um artista desmotivado que, embora alheio e displicente, vive sem grandes preocupações graças a uma herança confortável.
Mas a maternidade afetiva de Val não apaga a dor de sua ausência na vida de Jéssica, sua própria filha. O título original do filme remete a essa (dupla e espelhada) espera constante pela figura materna, enquanto o título internacional, “The Second Mother”, enfatiza a inversão de papéis que Val assume dentro da casa onde trabalha. Ao longo do filme, Muylaert também nos faz refletir sobre como o privilégio econômico permite a umas exercerem a maternidade de forma plena enquanto a outras resta terceirizar esse papel.
Espaço, apropriação e o simbolismo visual
A arquitetura da casa é um microcosmo da estrutura social. Os enquadramentos reforçam os limites impostos pela desigualdade: Val se move dentro da cozinha e dos espaços de serviço, mas nunca ultrapassa certas fronteiras. A piscina, tentadora no calor intenso, é um território proibido. O quartinho apertado onde Val dorme, abarrotado de descartes da patroa, contrasta com os espaços amplos e iluminados destinados aos membros da família. Essa geografia da exclusão se repete na cidade, com cenas que mostram a precariedade do transporte público e a gentrificação de espaços antes ocupados por classes populares.
O roteiro potencializa essas metáforas. A escolha de Jéssica pelo curso de Arquitetura e Urbanismo na USP não é acidental: sua presença desafia o status quo e sugere a possibilidade de transformação. A cena em que ela ocupa a suíte de hóspedes, enquanto a mãe permaneceu por anos encolhida no quartinho de empregada, é um gesto revolucionário dentro daquela realidade.
Grandes interpretações: Regina Casé, Camila Márdila e Karine Teles
Regina Casé entrega uma das atuações mais impactantes de sua carreira. Seu carisma natural dá a Val uma complexidade que transita entre a resignação e o afeto, mas também evidencia as camadas de internalização da subalternidade. Já Camila Márdila traz a Jéssica uma força serena, um frescor que contrasta com a servidão da mãe, mas sem perder a sensibilidade da personagem. O embate geracional entre as duas é um dos pontos altos do filme, refletindo transformações sociais vividas pelo Brasil contemporâneo.
Karine Teles, por sua vez, interpreta Bárbara com uma nuance que evita a vilanização fácil. Sua personagem encarna o privilégio de classe com naturalidade, demonstrando desconforto com a quebra das regras tácitas que mantêm a hierarquia doméstica, mas sem escorregar em uma caricatura de antagonista. O filme problematiza sua posição sem recorrer a maniqueísmos, o que fortalece sua crítica social. Embora, é preciso dizer, sua figura evoca a aura de uma socialite não tão rica, mas cheia de pose, como muito visto em novelas.
Desigualdade, trabalho doméstico e emancipação
O filme dialoga diretamente com a histórica desvalorização do trabalho doméstico no Brasil, cuja regulamentação só avançou de forma concreta com a PEC das Domésticas em 2013. A partir de sua entrada em vigor, uma série de transformações ocorreram, culminando na aprovação da Lei Complementar em 2015 – uma coincidência marcante com o lançamento do filme. A legislação garantiu direitos como FGTS, seguro-desemprego e adicional noturno, mas a resistência de parte da sociedade a essas mudanças evidencia o quanto o país ainda carrega os resquícios de um sistema escravocrata.
Jéssica simboliza essa mudança de paradigma. Sua recusa em aceitar as “regras” do ambiente de trabalho da mãe representa uma nova geração que questiona a estrutura social. O embate entre as duas não é apenas um conflito familiar e geracional, mas um confronto de visões sobre o que significa ocupar um espaço de forma plena e igualitária.
Rimas visuais e o poder da narrativa
Anna Muylaert constrói o filme com uma precisão narrativa que impressiona. Algumas cenas possuem rimas visuais e temáticas que reforçam a evolução da história. Um dos exemplos é a sequência em que Val serve café no aniversário da patroa, usando um conjunto de xícaras que ela mesma presenteou, apenas para ser repreendida por tê-lo escolhido. No final do filme, esse mesmo conjunto reaparece na nova casa de Val, onde ela, agora sentada à mesa, espera pelo café servido por Jéssica. A mudança de sua posição no quadro simboliza a libertação da personagem e a conquista de um espaço próprio.
Outra rima visual ocorre na piscina. No início, Fabinho e seus amigos se banham na água de forma despreocupada, enquanto Val apenas observa à distância, em uma clara divisão de espaços. Mais tarde, Jéssica rompe essa barreira e entra na piscina sem pedir permissão, desafiando o falso equilíbrio que rege a casa. Esse gesto gera desconforto nos patrões e simboliza a transgressão de um limite social historicamente imposto. Jessica na piscina é a quebra do “protocolo”. Algo muito importante foi rompido ali e por isso a câmera é lenta. Poderia ser apenas o divertimento de três jovens se refrescando, mas as tensões sociais são tantas que a câmera lenta ajuda a estabelecer a sensação do impacto do que está acontecendo. Bárbara, inconformada, pede que a piscina seja esvaziada no dia seguinte, usando a desculpa de ter visto um rato por perto (!).
Adiante no filme, a mesma piscina, com nível de água baixíssimo, e mais uma metáfora: Val entrando silenciosamente, molhando seus pés, chutando a água e dançando. É sua pequena grande vitória, sua pequena transgressão em homenagem ao sucesso da filha, que passou no vestibular. Ela também quebra o protocolo e, no caso dela, é uma quebra ainda maior dado o tempo que ficou presa a ele.
O Legado de “Que Horas Ela Volta?”
Este é um dos filmes do cinema brasileiro contemporâneo que mais ressoam, tanto pela maestria técnica e narrativa, quanto pelo impacto duradouro que provoca no imaginário social. Anna Muylaert maneja a sutileza como uma lâmina afiada, desdobrando, com ironia e afeto, os labirintos da classe, do gênero e das contradições que sustentam nossas desigualdades. Cineasta fundamental para o nosso cinema, ao longo de duas décadas de trabalho, sua obra se inscreve entre as mais perspicazes, tendo como marca autoral a habilidade de equilibrar drama e comédia, abordando temas espinhosos com leveza, mas sem escorregar em estereótipos reducionistas.
Onde ver "Que Horas Ela Volta?" no streaming:

Editora, crítica de cinema e podcaster do Cinematório. Filiada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e membra do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Jornalista profissional pela UFMG e com formação em Produção de Moda pela mesma instituição. É cria dos anos 90 e do interior de Minas.