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“Ainda Estou Aqui”: Três Olhares de Eunice

"Ainda Estou Aqui" (2024), de Walter Salles - Foto: Divulgação

"Ainda Estou Aqui" (2024), de Walter Salles - Foto: Divulgação

“Ainda Estou Aqui” marca o retorno de Walter Salles ao cinema, doze anos depois de “Na Estrada” (2012). Um grande retorno, é preciso ressaltar. Com roteiro de Murilo Hauser e Heitor Lorega, baseado no livro autobiográfico homônimo de Marcelo Rubens Paiva, o filme narra a história de Eunice Paiva (Fernanda Torres), advogada e ativista de direitos humanos, e como sua família foi atravessada pela ditadura militar no Brasil. Em 1971, Rubens Paiva (Selton Melo), ex-deputado federal cassado pelo regime e marido de Eunice, foi sequestrado por militares, torturado e assassinado. O corpo dele nunca foi encontrado. A partir desse trauma, Eunice precisou se reinventar, enfrentando o silenciamento e a opressão enquanto lutava pela verdade e pela sobrevivência de seus filhos.

A direção de Salles conduz a narrativa respeitando a densidade emocional da história, utilizando sutilezas, silêncios e enquadramentos precisos para amplificar a força da atuação de Fernanda Torres, que interpreta Eunice. A performance de Torres se destaca pela contenção, com uso expressivo do olhar e da respiração para comunicar a dor, a força e a resistência de sua personagem. A contenção na atuação de Torres, no entanto, não é apenas uma escolha estilística e de caracterização, evocando, também, uma representação do contexto de repressão da época. A vigilância constante, o medo da perseguição e da brutalidade policial e a necessidade de autocontrole para sobreviver foram experiências vividas por aqueles que enfrentavam o regime. A experiência de Eunice e, por extensão, da performance da atriz, evocam o sentimento do interdito, envolvendo o espectador e a espectadora em tensão e angústia, embora sem perder de vista a obstinação – somos imersos no ponto de vista da protagonista, sensorialmente. 

A fotografia transita da iluminação solar do cotidiano para as sombras opressivas que acompanham a violência estatal, enquanto a direção de arte e o figurino constroem a ambientação dos anos 1970, incluindo elementos culturais importantes, como discos, revistas e o mobiliário da época. A trilha sonora, assinada por Warren Ellis, surge com discrição e profundidade, reforçando a emoção de momentos-chave sem sobrecarregá-los. O uso de canções emblemáticas também são essenciais para a atmosfera, além de ecoarem a luta de Eunice, por serem músicas criadas em um contexto de censura, buscando as brechas possíveis, as formas de resistir e lutar pela liberdade.

Dentro dessa jornada, três momentos específicos revelam muito sobre a trajetória emocional da protagonista. São três momentos que mostram diferentes camadas do olhar de Eunice diante da repressão e da ausência, formando um arco que pode ser chamado de “Três Olhares de Eunice”. Vamos a eles:

A foto na praia

A família se reúne para tirar uma foto perto de casa, em frente ao mar. Enquanto os filhos brincam e Rubens organiza a pose, Eunice desvia o olhar para os caminhões do Exército que passam pela avenida. A composição do quadro e a profundidade de campo fazem com que o espectador e a espectadora percebam esse detalhe quase ao mesmo tempo que Eunice, criando uma quebra visual sutil, mas importante. O que está fora de quadro sugere muito mais do que a cena centralizada na fotografia familiar: a tensão crescente que poucos percebem, mas que já é uma presença que não se pode ignorar. Esse olhar é carregado de pressentimento, antecipação.

Prisão e despedida de Rubens

Antes de terem a casa invadida por agentes da ditadura, o casal compartilha um momento cotidiano de conversa, jogando gamão. Com a chegada dos militares, a câmera torna-se instável, e os enquadramentos de janelas, portas e outras estruturas da casa, dentro do enquadramento do próprio filme, reforçam a ideia de aprisionamento, enquanto a fotografia marca, gradualmente, a sombridade, e a trilha sonora se ausenta,  dando lugar ao seco e ao vazio. O close no último olhar trocado entre Eunice e Rubens traduz a impotência, o não saber e o horror silenciado. A desumanidade do regime se expressa não apenas em violência explícita, mas também na forma mecanizada e dissimulada com que os militares conduzem a prisão, como se fosse um procedimento administrativo comum. Toda essa sequência é construída com um contraste entre a paz momentânea e a brutalidade da separação. O olhar da despedida de Eunice reflete a ruptura desconcertante, mas ainda incompreensível. 

Na sorveteria

Após a confirmação da morte de Rubens, Eunice tenta preservar alguma normalidade para os filhos. A ida à sorveteria simboliza esse esforço, mas o peso da ausência é inescapável. O que antes era um espaço de afeto familiar agora expõe um contraste irremediável entre o desejo de continuidade e a irreversibilidade da perda. O cotidiano e a tragédia se confundem. A falsa normalidade do ambiente – com famílias despreocupadas, risos dispersos e colheres tilintando em copos coloridos – acentua a desconexão de Eunice com o mundo ao redor. Seu luto silencioso se impõe. Ela é, ao mesmo tempo, presença e ruína, um corpo que carrega e comunica um paradoxo daquele tempo. Ali, na sorveteria, a ditadura coexistia, cruelmente, com a rotina. O olhar de Eunice, devastado, ainda guarda uma firmeza rara: um enfrentamento que persiste.

Um arco de resistência, luto e memória

Esses três momentos traçam o arco singular de Eunice. Seu olhar primeiro antecipa o horror, depois o vive em sua forma mais cruel e, por fim, carrega a certeza de que nada será como antes. Ainda assim, segue em luta pela dignidade e pelo peso da memória. O desfecho do filme resgata essa memória — tanto pessoal quanto histórica — com Eunice já idosa, interpretada por Fernanda Montenegro, convivendo com a Doença de Alzheimer. Diante da televisão, ela assiste a uma reportagem sobre a Comissão da Verdade e, em meio ao esquecimento que a acomete, reconhece a foto de Rubens. Mesmo quando sua mente vacila, a lembrança dele permanece.

E deve permanecer para todos. O filme se insere em um contexto contemporâneo em que a ascensão da extrema-direita ressignifica e reescreve narrativas sobre a ditadura militar. Diante da crescente presença de discursos negacionistas e revisionistas, obras como “Ainda Estou Aqui” tornam-se fundamentais para reafirmar a história política do Brasil e nos manter atentos. Ainda que o longa evite aprofundar certos aspectos estruturais do regime, sua escolha narrativa — centrada na perspectiva da família Paiva e, especialmente, na de Eunice — não apenas se mantém fiel ao material de referência (o livro), mas também intensifica a carga emocional. Dessa forma, abraça um público mais amplo, despertando identificação e empatia — um gesto poderoso e necessário para o debate sobre os riscos recorrentes à democracia.

 

Nota:
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