"Tudo que Imaginamos como Luz", de Payal Kapadia - Foto: Divulgação

“Tudo que Imaginamos como Luz”: Uma sinfonia política de Mumbai – Entrevista com Payal Kapadia

O cinema contemporâneo ganhou novo brilho com “Tudo que Imaginamos como Luz” (All We Imagine as Light, 2024), escrito e dirigido pela indiana Payal Kapadia. Premiado com o Grand Prix no Festival de Cannes (primeiro filme da Índia a receber esse prêmio), o longa se destaca como uma representação poética e íntima da vida em Mumbai, onde a ficção e o documentário se entrelaçam para compor um retrato sensível da cidade e das mulheres que a habitam.

Kapadia, que anteriormente dirigiu o documentário “Uma Noite Sem Saber Nada” (A Night of Knowing Nothing, 2021), carrega consigo uma abordagem híbrida – o que dialoga muito com o cinema independente brasileiro. “Eu amo cinema que mistura ficção, não ficção, texto, desenhos. Acho que o cinema tem o potencial de realmente incluir diversas ideias formalistas”, disse a diretora em entrevista coletiva realizada online. Essa fusão estilística faz do filme uma experiência singular, onde a narrativa acompanha três mulheres — Anu (Divya Prabha), Prabha (Kani Kusruti) e Parvati (Chhaya Kadam) — em suas rotinas, desejos e lutas cotidianas. São mulheres de diferentes idades mas que se fortalecem pela solidariedade, trabalhadoras cujas inquietações e problemas revelam o subjetivo e o social em justaposição.

A estética documental se faz presente na maneira como Kapadia e seu diretor de fotografia, Ranabir Das, filmaram Mumbai. “Nós apenas íamos com uma câmera pequena e filmávamos a cidade com sinceridade”, explicou a cineasta. O resultado é um registro vibrante, que captura a pulsação urbana sem artificialidade. A decisão de inserir cenas reais, como o Festival Ganpati (ou Ganesh Chaturthi), confere autenticidade e reforça a sinergia entre a cidade e suas personagens.



A ambientação, porém, vai além do realismo. Há um lirismo evidente na forma como Mumbai é retratada. A dureza da metrópole não é minimizada, mas sobre ela há um olhar humano, delicado. Durante a entrevista coletiva, minha pergunta foi sobre esse processo, pois me interessava saber quais os desafios que a diretora enfrentou para conseguir capturar a atmosfera de uma cidade tão complexa. Na resposta, Kapadia mencionou que cada cena adiciona uma nova nota à composição, como em uma sinfonia. 

Ela descreve essa abordagem como um reflexo de suas experiências durante a escrita do roteiro e a edição de seu documentário anterior. “Eu conheci muitas enfermeiras, muitas mulheres jovens, muitas mulheres mais velhas também, só para obter mais informações, só para ter mais entendimento, não necessariamente para colocar no roteiro. Mas algumas dessas interações realmente ficaram comigo. Também fiz muitas imagens de Mumbai fora do cronograma de filmagens… E, de alguma forma, eu senti que precisava fazer uma ode a essas conversas e fazer o filme como uma sinfonia da cidade. A parte da ficção e a história de Anu, Prabha e Parvati são talvez as três notas que escolhemos dessa sinfonia e combinamos em uma canção”, afirmou.

No cerne do filme está a questão da resistência — tanto política quanto pessoal. Kapadia insere temas sociais essenciais na narrativa, como o deslocamento forçado de populações marginalizadas devido à gentrificação, e os desafios enfrentados pelas mulheres indianas em busca de autonomia. “Uma das maiores questões na Índia é a questão da escolha. Para jovens mulheres, mesmo que sejam financeiramente independentes, é muito difícil escolher o parceiro de vida que desejam”, pontuou. Ao abordar essas temáticas por meio da vivência de suas protagonistas, o filme transforma o pessoal em político, ampliando sua relevância.

A cineasta também ressalta a importância de sua trajetória e do impacto de “Tudo que Imaginamos como Luz” na indústria cinematográfica indiana. Seu primeiro filme não teve distribuição em seu país, um obstáculo comum para produções independentes. No entanto, o sucesso de seu novo trabalho garantiu lançamento em mais de 50 países, incluindo a Índia, um feito que Kapadia comemora. “Eu realmente queria que o filme fosse exibido em diferentes países e também no meu país, onde a distribuição é realmente difícil. Mesmo para grandes filmes, a distribuição nos cinemas é complicada”, disse.

O reconhecimento do longa vai além dos prêmios e da exibição internacional. Ele demonstra a força de um cinema que desafia convenções, trazendo novas perspectivas sobre a Índia contemporânea. “Para mim, estar em Cannes, competindo com diretores que sempre admirei, já era muito. E então ganhar o Grand Prix foi muito mais do que esperávamos”, revelou Kapadia. O momento se tornou ainda mais especial por reunir sua equipe, reforçando o caráter colaborativo da produção, que ela também frisou durante a entrevista. 

Com uma narrativa envolvente e uma estética que equilibra realismo e poesia, “Tudo que Imaginamos como Luz” se firma como um marco na carreira de Payal Kapadia e no cinema indiano. É um filme que ressoa não apenas pela beleza de sua construção, mas pela força do que comunica, provando que, muitas vezes, o mais íntimo e pessoal pode alcançar e comover pessoas do mundo inteiro, ao mesmo tempo que faz refletir sobre questões políticas fundamentais.

Onde ver "Tudo que imaginamos como luz" no streaming: