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“Flow”: simplicidade e poesia em um mundo pós-apocalíptico

"Flow" (2024), de Gints Zilbalodis - Divulgação

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Viver no modo “deixa a vida me levar” pode nem sempre ser a melhor escolha. Compreender o fluxo da vida e aprender a se adaptar a ele pode tornar a jornada mais leve. E é exatamente essa a mensagem que “Flow” transmite.

A animação é protagonizada por Gato, um animal solitário que vê o seu lar ser devastado por uma grande enchente. Buscando uma forma de sobreviver após a inundação, ele enfrenta diversas ameaças até encontrar refúgio em um pequeno barco povoado por várias espécies de bichos. Para fugir de todas as dificuldades que surgiram após o desastre ambiental, os animais terão que se unir e deixar de lado as suas diferenças.

Mesmo sendo um filme sem diálogos e apenas com animais como personagens, “Flow” tem a presença de humanos no pano de fundo. A casa onde o protagonista vive é um dos locais responsáveis por mostrar isso ao público: há pinturas desenhadas e alguns objetos que pertencem a humanos, como cama, caneta e papel. Além disso, há estátuas construídas em diversos pontos da cidade onde se passa a narrativa. Isso mostra que, provavelmente, antes da enchente que afeta as vidas dos animais, algo aconteceu e dizimou toda a população humana ou, no mínimo, provocou uma fuga em massa. Este ponto é essencial para entender a mensagem central que o filme transmite: de que tudo pode mudar a qualquer minuto, seja na natureza ou na vida como um todo.

É neste clima que o jovem diretor e co-roteirista Gints Zilbalodis escolhe seguir durante toda a narrativa de “Flow”. A falta de certeza do que pode acontecer a seguir prende a atenção do espectador. O roteiro, também assinado por Matīss Kaža, é repleto de situações que colocam o Gato em perigo, e isso provoca muita tensão, afinal, a vida do protagonista está em risco em quase todos os 85 minutos do longa, financiado pela Letônia, com colaboração da França e da Bélgica.

Essa atmosfera traz um clima de ansiedade, deixando dúvidas sobre o que está por vir na vida do animal e se ele conseguirá se safar de mais um desafio. E isso se torna um dos principais pontos de destaque do roteiro: a tensão palpável e a empatia que existe entre o espectador e a história. É fácil se identificar com um enredo que mostra a vida de um personagem que precisa se adaptar às mudanças recorrentes da vida.

"Flow" (2024), de Gints Zilbalodis - Divulgação
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A maneira com que o Gato lida com todas as situações adversas que aparecem é de se admirar, e é apresentada como lição de vida. Por exemplo, como a maioria dos animais da sua espécie, o protagonista tem medo de água, mas, por ironia do destino, ele é surpreendido com uma enchente que faz os rios e mares subirem a um nível cada vez mais alto.

No início, ele ainda tenta encontrar pontos para se abrigar, mas, quando vê que não é mais possível fugir de toda aquela água, ele busca maneiras de lutar por sua vida e encara a realidade como pode. A trajetória de amadurecimento do personagem principal é encantadora: ele inicia a história lidando com seu medo de água e, ao decorrer do filme, entende que, na atual realidade do seu mundo, este pavor pode atrapalhar sua sobrevivência.

Uma das cenas mais bonitas da animação é quando o Gato vai ao mar, diversas vezes, para pegar peixes que servem de alimento para ele e seus colegas de barco. Ali, Zilbalodis (que já havia chamado a atenção com seu talento no longa anterior, “Longe”, de 2019) é sutil ao mostrar como a resiliência é essencial em todos os cenários possíveis que a vida apresenta. Esta e várias outras características resultam em um roteiro sensível, cheio de emoção, carinho e afeto.

"Flow" (2024), de Gints Zilbalodis - Divulgação
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Sem nenhum diálogo em cena, o diretor e sua equipe são capazes de levar para a tela relações entre animais de diferentes espécies de uma forma completamente crível, colocando entre eles problemas que facilmente poderiam acontecer na vida real — e com nós, humanos.

Zilbalodis traz o óbvio, como a dificuldade de cães, gatos e aves viverem em harmonia, mas, mesmo com essas diferenças, os animais conseguem chegar em um ponto onde a individualidade de cada um é respeitada e, ao mesmo tempo, há afeto e compreensão entre eles. É inspirador ver que, apesar da trama continuar trazendo diversos desentendimentos até o final, os animais conseguem se respeitar e cuidar um do outro ao entender que todos estão passando pelas mesmas dificuldades ao habitar um cenário pós-apocalíptico. Em “Flow”, a importância da empatia em momentos de insegurança é mostrada de uma forma simples e poética.

E não é apenas o roteiro do filme que cativa quem assiste. Esteticamente, o longa é muito bonito e a animação desperta a curiosidade e o desejo em acompanhar a história. É nítido que “Flow” não adota um visual comum, visto em outras animações contemporâneas (em especial as de grandes estúdios), o que pode causar uma estranheza num primeiro momento. Porém, isso logo passa e o que antes era estranho passa a ser interessante e enriquecedor para a trama.

"Flow" (2024), de Gints Zilbalodis - Divulgação
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Vale destacar que, mesmo estetizado em seu visual, o filme se esforça para apresentar o comportamento dos animais da forma mais realista possível. Para isso, foi utilizado um programa de animação 3D denominado Blender, que tem um visual único e atrativo. Por ser de código aberto e gratuito, ele também foi responsável por ajudar a equipe a trabalhar com um baixo orçamento, de apenas 3,5 milhões de euros (valor muito, muito, muito menor do que o usado pelas animações blockbusters).

Zilbalodis trabalhou com o máximo de realismo possível e, mesmo assim, não abriu mão de técnicas de animação que conseguem trazer à tona os detalhes cartunescos dos personagens e paisagens, garantindo fantasia e encanto à narrativa. Através do visual é possível descobrir aquele mundo de uma maneira imersiva e empolgante.

O gato, os cães, as garças, a capivara, os peixes… Todos os animais apresentados são adoráveis e a impressão que fica é que o espectador está diante de um bicho de verdade, não pela estética, mas pelos trejeitos dos personagens. É quase impossível não deixar escapar um “Awmmm!”, ao ver o cão hipnotizado pela bola de brincar. E quem tem gato em casa sabe que a maneira como ele cospe uma bola de pelos é exatamente igual à apresentada no filme. Esses pontos ajudam na missão de levar mais realismo ao longa sem focar apenas na aparência perfeita dos animais.

"Flow" (2024), de Gints Zilbalodis - Divulgação
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Além da fotografia, um ponto muito importante da trama é o som. A mixagem impecável traz sons de animais reais, assim como os barulhos presentes na natureza, o que intensifica e engrandece a experiência cinematográfica da obra.

Ao final de “Flow”, fica claro que a jornada do Gato vai além da sobrevivência em um mundo pós-apocalíptico. A animação se transforma em uma metáfora sobre adaptação e resiliência. A ausência de diálogos reforça que a mensagem é para todos, de qualquer lugar do mundo: independentemente das diferenças, é possível encontrar apoio e empatia em meio ao caos. O filme nos lembra que a mudança é inevitável, mas aprender a fluir com ela pode ser o caminho para a superação.

Com uma estética única, uma trilha sonora imersiva e um roteiro sensível e sutil, “Flow” se destaca como uma experiência cinematográfica agradável e intensa. Gints Zilbalodis e sua equipe entregam uma obra visualmente deslumbrante e emocionalmente envolvente, que cativa o público ao explorar a fragilidade e, ao mesmo tempo, a força de seus personagens. ■

Nota:
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