Já vimos muitos filmes que nos propõem narrar a trajetória de uma figura conhecida. Mesclam-se gêneros para se contar uma história dentro da cinebiografia, como drama, musical e comédia. Mas como podemos dizer se um filme conseguiu atingir realmente a essência daquela figura? Para esta pergunta parece não existir uma única resposta e nem uma que seja simples, mas um filme vence quando saímos dele entendendo um pouco melhor as atitudes que são tomadas pelo personagem/persona biografada.
Em “Um Completo Desconhecido”, o diretor James Mangold parece dar a resposta certa mais uma vez. Isso porque, em sua trajetória profissional, não é a primeira vez que o cineasta encara o desafio de contar uma história que já foi vivida na realidade por outro alguém. Fez isso em 2005 com “Johnny & June” e, também, em 2019 com “Ford vs. Ferrari”. Agora, o desafio parece um pouco maior ao escolher retratar um artista tão controverso e recluso, para dizer o mínimo, como Bob Dylan. Mas Mangold faz isso de maneira não só convincente, como emocionante e até realista. Timothée Chalamet dá vida e voz a uma das figuras mais interessantes do meio musical, um homem que pouco dá entrevistas e divide opiniões até mesmo no meio dos fãs.
Voltamos para o ano de 1961, quando o forasteiro Bob era um ninguém. Acompanhamos seus primeiros passos rumo a uma carreira brilhante que pode ter sido invejada por muitas pessoas com quem ele conviveu. Para além da parte musical e de composição, o filme proporciona um encontro mais visceral com esse desconhecido e suas atitudes. De maneira crua, nós vemos a construção de um ser humano que tinha uma escuta ativa, mas que, em muitas situações, agia como um tremendo “babaca”. Suas dificuldades nas relações interpessoais, seus affairs, tudo é retratado no filme, sem medo e sem amarras.
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Uma persona cheia de nuances exigiu uma atuação à altura e que nos foi entregue com maestria por Timothée Chalamet, que incorporou a voz, sotaque e trejeitos do músico. Para além disso, o ator consegue reproduzir o andar, o olhar e o magnetismo de um músico que há mais de seis décadas encanta e embala as rádios e também as lutas sociais. Bob Dylan tem uma importância que vai para além da música e o longa consegue nos mostrar a forma como ele via o mundo, mas sem santificar a sua imagem.
Muitas vezes, em cinebiografias de artistas consagrados, nós notamos um certo receio em manchar um ícone que pode ser visto por muitos como um ser imaculado, mas, em “Um Completo Desconhecido”, acontece o contrário. É exatamente por isso que saímos da sessão ainda mais encantados e curiosos por Bob Dylan, por sua humanidade e por termos essa experiência de realmente enxergar o outro, mas não saber de tudo. Isso é algo que só um bom filme é capaz de fazer e este com certeza o faz.
Uma cena marcante que sintetiza esse sentimento é um diálogo de Bob Dylan com Sylvie Russo (personagem de Elle Fanning), no qual, depois de eles assistirem a um filme com Bette Davis, Sylvie comenta que mudou completamente para melhor. Bob responde: “Nem bom, nem mau. Diferente.” Esta frase, para mim, resume a visão de mundo que nos é apresentada, de alguém que buscava não fazer julgamentos de valores sobre si mesmo e sobre os outros, e que aceitava as transformações como um curso sutil da vida, como parte de um ciclo natural. Ele não dizia que seria melhor ou pior, mas apenas uma mudança.
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Falta um pouco mais desses momentos durante o filme, de observar Bob além dos palcos e dos estúdios. Diálogos como aquele com Sylvie não são muitos, o que é justificável ao pensarmos em uma pessoa que é, por essência, um pouco mais calada e observadora. Mas são cenas assim que fazem toda a diferença na narrativa e na construção de personagem. A sensação ao final é de sair sabendo um pouco mais sobre a persona Bob Dylan, mas um pouco menos do ser humano interessantíssimo que o mesmo era.
A escolha do elenco é um ponto-chave para a criação da veracidade de “Um Completo Desconhecido”. O maior destaque em cena fica a cargo de Elle Fanning e Monica Barbaro que interpretaram alguns dos romances de Bob. Sendo Monica a icônica cantora Joan Baez, que já esteva no auge da cena folk quando Dylan iniciou seu sucesso. A recriação de cenários e figurinos é outro ponto alto do filme. A imagem da Nova York dos anos 1960 e dos festivais de música nos aproximam de um momento histórico que os EUA viveram, da luta pelos direitos civis, mas também nos transporta para um momento de estranheza comparando as gerações, de um mundo em que era permitido andar de moto sem capacete e não existiam celulares. Choques de gerações que são sempre encantadores de se ver na tela grande.
A escolha do título obviamente não é ao acaso. Faz parte da música “Like a Rolling Stone”, na qual Bob Dylan nos questiona na letra: “Como se sente? Por estar sem um lar, sem uma direção, como um completo desconhecido, como uma pedra que rola?” Escrita em meio a sua transição de um cantor folk para um cantor de rock, ele se reinventa. O verso “um completo desconhecido” sintetiza o Bob Dylan do filme. É o verso que melhor define essa fase do artista, alguém que não tem uma direção calculada, mas que se movimenta, que corre riscos e que se importa com questões maiores, com ver além do que é mostrado. É um verso que nos faz sair do filme pensativos em produzir de maneira mais livre e, também, mais questionadora. ■
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UM COMPLETO DESCONHECIDO (A Complete Unknown, 2024, EUA). Direção: James Mangold; Roteiro: James Mangold, Jay Cocks (baseado no livro de Elijah Wald); Produção: Peter Jaysen, James Mangold, Alex Heineman, Bob Bookman, Alan Gasmer, Jeff Rosen, Timothée Chalamet, Fred Berger; Fotografia: Phedon Papamichael; Montagem: Andrew Buckland, Scott Morris; Com: Timothée Chalamet, Edward Norton, Elle Fanning, Monica Barbaro, Boyd Holbrook, Scoot McNairy; Estúdio: Searchlight Pictures, Veritas Entertainment Group, White Water, Range Media Partners, The Picture Company, Turnpike Films; Distribuição: Searchlight Pictures, Disney; Duração: 2h 21min.
Onde ver "Um Completo Desconhecido" no streaming:
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