A mostra de filmes “Memórias da Ditadura” acontece no Cine Santa Tereza, em Belo Horizonte, com o intuito de preservar a memória coletiva e refletir sobre um dos períodos mais sombrios da história do Brasil. Com estreia no dia 1º de abril, data que marca os 61 anos do golpe que deu início à Ditadura Militar, a mostra traz, até o dia 6, registros documentais raros, filmes baseados em fatos reais e outras obras que destacam os efeitos da violência institucionalizada. Um dos destaques é a exibição de filmes raros gravados ainda durante o período de repressão, incluindo depoimentos como o de Eunice Paiva, cuja história ganhou destaque internacional com o filme vencedor do Oscar “Ainda Estou Aqui”. A mostra tem ingressos gratuitos, que podem ser retirados na plataforma Sympla ou na bilheteira do cinema, 30 minutos antes de cada sessão.
A programação começa com o documentário “Retratos de identificação” (2014), de Anita Leandro, que conta a história de Dora e seus companheiros de resistência ao regime militar, por meio de fotografias e documentos de suas respectivas prisões e subsequentes episódios de tortura. Na quarta-feira, 2 de abril, será exibido “Os Dias Com Ele” (2013), de Maria Clara Escobar, um documentário em que a cineasta mergulha nas memórias do pai, com quem conviveu pouco, após ele ter se exilado para escapar das ameaças de prisão e violência sofridas durante a Ditadura.
Em “Vlado, Trinta Anos Depois” (2005), de João Batista de Andrade, a história do jornalista Vladimir Herzog, assassinado nas instalações do DOI-CODI, em 1975, é contada por meio de depoimentos de pessoas próximas a ele. O documentário será exibido na quinta-feira, 3/4. Flávia Castro, diretora de “Diário de uma Busca” (2010), documentário em cartaz na sexta-feira, 4/4, reconstitui os passos do pai Celso Afonso Gay, exilado político e morto, em 1984, em um crime misterioso.
Zuzu Angel, Eunice Paiva e outras mulheres que resistiram
Para encerrar a mostra, no dia 6/4, o Cine Santa Tereza dedica uma sessão dupla, com o longa “Zuzu Angel” (2006), de Sérgio Rezende, seguido das exibições dos curtas “Eunice, Clarice, Thereza” (1979), de Joatan Vilela Berbel, e “Santo e Jesus, Metalúrgicos” (1983), de Cláudio Kahns e Paulo Sérgio Ferraz.
“Zuzu Angel” é baseado na história real da estilista mineira Zuleika Angel Jones (1921-1976), que, mesmo nunca tendo sido militante política, teve sua vida transformada depois que seu filho foi preso em 1971 e desapareceu, para nunca mais ser visto.
Filmado durante a ditadura militar, o recém-restaurado “Eunice, Clarice, Thereza” reúne depoimentos emocionantes de três mulheres que perderam seus maridos para o regime. Eunice Paiva era casada com o engenheiro e ex-deputado Rubens Paiva, que foi levado de sua casa em 1971 e nunca mais retornou. A história de Eunice, que enfrentou tortura psicológica enquanto lutava pela verdade e ainda criava seus cinco filhos, tocou o coração do mundo, sendo retratada no livro “Ainda Estou Aqui”, de Marcelo Rubens Paiva, que serviu de base para o roteiro do filme homônimo, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional.
Clarice Herzog também teve seu depoimento registrado no documentário. Ela é viúva do jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado pelos militares no DOI-CODI, em um dos casos mais emblemáticos da repressão. Apesar dos militares tentarem esconder o crime alegando suicídio, foi a incansável luta de Clarice que levou à reabertura do caso e ao reconhecimento da verdade. Outra mulher que teve sua história gravada foi Thereza Fiel, esposa de Manoel Fiel Filho, metalúrgico assassinado sob tortura pelos militares em 1976, em um crime que chamou a atenção por suas semelhanças com o caso Herzog. Thereza, assim como Eunice e Clarice, enfrentou a dor da perda e a luta pela justiça, tornando-se também uma voz forte contra a repressão e em defesa da memória do marido.
O movimento operário também foi duramente atingido pela ditadura militar, e Manoel Fiel Filho não foi o único metalúrgico a ser vítima da violência do regime. Fechando a mostra, o curta “Santo e Jesus, Metalúrgicos” faz um elo entre essas tragédias e retrata os assassinatos dos operários Nelson Pereira de Jesus e Santo Dias.
A mostra “Memórias da Ditadura” reúne relatos diretos e pessoais sobre a repressão de forma íntima, expondo o impacto humano da violência autoritária e destacando as histórias de resistência e coragem de personagens reais que lutaram pela verdade e pela democracia.
Com informações da assessoria de imprensa da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte.