crítica filme presença
Um dos mais recentes filmes do prolífico e inquieto cineasta estadunidense Steven Soderbergh (“Sexo, Mentiras & Videotape”, “Traffic”, “Magic Mike”, “Contágio”), “Presença” oferece uma experiência sensorial além do tradicional gênero de filmes de terror. Embora a premissa – uma família se muda para uma casa assombrada por uma entidade – pareça familiar e até clichê dentro do subgênero, o diretor subverte as expectativas ao criar uma atmosfera única e um suspense psicológico que é sustentado não pela trama convencional, mas pela maneira inovadora de observar as interações humanas e a presença de algo além. O que se destaca no longa é a forma como Soderbergh — que, como de hábito, também assume a direção de fotografia sob o pseudônimo Peter Andrews — faz da câmera um personagem essencial, proporcionando ao espectador uma perspectiva que transforma a experiência em algo mais imersivo e perturbador. A fotografia, de fato, é uma das grandes responsáveis pela tensão crescente do filme.
Em “Presença”, a câmera adota uma abordagem subjetiva e observacional, do ponto de vista da entidade que habita a casa. O uso da câmera subjetiva coloca o espectador em um papel incomum, quase como um voyeur que espia, a princípio, sem ser visto. A lente, em muitos momentos, se posiciona de forma que nós, como espectadores, nos sentimos como intrusos nas interações da família, quase como se fôssemos uma presença estranha dentro da casa. Aliás, a família conta com ótimas atuações de Lucy Liu, Chris Sullivan, Callina Liang, Eddy Maday e West Mulholland.
Se em 2001, Alejandro Amenábar, com o filme “Os Outros”, inverte o protagonismo deste estilo narrativo de histórias de fantasmas, por uma perspectiva ocultada por um plot twist, Soderbergh provoca ainda mais, para além da narrativa, através da forma do filme. O gênero do terror historicamente consolida diferentes formas estéticas para a criação de uma atmosfera de tensão, brincando com a presença da câmera na diegese do filme, seja no estilo found footage como em “A Bruxa de Blair” (1999), ou através de câmeras de segurança como em “Atividade Paranormal” (2007) explorando o cinema de ficção observacional dentro do gênero. Em “Presença”, a câmera em si não é diegética, mas ela se comporta na mise-en-scene de forma que remete a estas formas, em uma perspectiva incomum, inovadora, e que funciona perfeitamente na proposta formal do filme.
O filme explora um tipo de voyeurismo sutil, onde a própria dinâmica familiar se desenrola sem que os personagens sequer saibam que estão sendo observados de maneira tão intimista. A interação da câmera com os membros da família é constante, mas de maneira furtiva, fazendo o público sentir-se parte da cena, mas também desconfortável, como se estivesse violando a privacidade dos personagens. Nos momentos em que os personagens percebem a presença da câmera/entidade ou começam a interagir com ela, fica evidente que nós, como espectadores, somos o verdadeiro fantasma que observa e invade os limites do cotidiano. Esse jogo de perspectivas não só intensifica a sensação de estranhamento, mas também complexifica a relação entre observador e observado.

Outro ponto que diferencia “Presença” de outros filmes do gênero é a maneira como ele constrói as relações familiares de forma gradual e sem pressa. Os membros da família são apresentados de maneira despretensiosa, com suas dinâmicas e tensões se revelando aos poucos. Ao contrário de muitos filmes de terror, onde os personagens são frequentemente meros alvos da entidade, aqui, cada um dos membros tem a sua própria jornada, com conflitos internos e externos que se desdobram ao longo do filme. A “entidade”, por sua vez, vai além de um simples monstro ou espírito maligno; ela se torna uma presença que, à medida que se desenvolve, se integra à trama de uma maneira sutil, mas profundamente eficaz. O que parecia ser uma simples força sobrenatural se revela, ao final, com um twist, como uma peça chave para o desfecho, justificando sua presença na casa e no desenvolvimento das relações familiares.
Em “Presença”, Soderbergh cria não apenas uma história de terror, mas inova na forma, na técnica e no gênero. A habilidade do diretor em usar a câmera como um personagem ativo, observando a família como um intruso, transforma a obra em algo muito mais do que uma típica narrativa de assombração. “Presença” é, sem dúvida, uma obra sensível e genial, que conquista pela sua ousadia e pela maneira como explora o ponto de vista da câmera dentro da narrativa de uma história de fantasma. ■
PRESENÇA (Presence, 2024, EUA). Direção: Steven Soderbergh; Roteiro: David Koepp; Produção: Julie M. Anderson, Ken Meye; Fotografia: Peter Andrews; Montagem: Mary Ann Bernard; Música: Zack Ryan; Com: Lucy Liu, Chris Sullivan, Callina Liang, Eddy Maday, West Mulholland, Julia Fox; Estúdio: Sugar23, Extension 765; Distribuição: Neon, Diamond Films; Duração: 1h 30min.
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Crítico, roteirista e professor. Graduado em cinema e audiovisual pelo Centro Universitário UNA. Desde 2017 atuando de forma independente em: produção e curadoria em projetos de cineclubes; análise/crítica; comentários de filmes em mostras de cinema; roteiro; ensino sobre linguagem cinematográfica, escrita, artes e mídias.